Como trabalhar com mangá nacional em sala de aula

Sala de aula é sempre um desafio para o trabalho pedagógico envolvendo o estudo de linguagem.

Muitas vezes, professores buscam atividades prontas, exercícios com gabaritos, livros que possam fornecer materiais para os alunos e não encontram.

Tudo isso gera um desgaste físico e emocional por causa do pouco tempo para planejar as atividades em sala de aula.

Neste post, vamos aprender de forma bastante sucinta o que é o mangá, suas características principais e daremos o exemplo, com sugestões de atividades, para o trabalho em sala de aula.

O objetivo é fornecer algo mais prático que possa economizar o tempo de execução para montagens de tarefas escolares com mangá.

A origem do mangá


O mangá é um tipo de quadrinhos que surgiu no Japão no século XVII.

Ao pé da letra, significa “desenho involuntário”. Surgiu de duas palavras: “man” (involuntário, irresponsável) e “ga (desenho, imagem).

Eram ilustrações que retratavam situações cotidianas, reunidas em publicações esporádicas.

A primeira revista que se tem notícia foi a “Hokusai Manga”, apresentando pequenas histórias com sequências narrativas.

Exemplo de uma página de Hokusai Manga

O boom do mangá foi a partir do final da 2ª Guerra Mundial com o sucesso das publicações de Osamu Tezuka que estabeleceu um padrão inicial para as ilustrações.

Foram vários sucessos editoriais que encantaram o Ocidente e influenciaram desenhistas no mundo inteiro à medida que o consumo do mangá avançava pelo mundo.

Como exemplos de personagens de Tezuka, temos: A Princesa e o Cavaleiro, Astro Boy, Kimba, o Leão Branco, entre outros.

Com o tempo, outros estilos e grandes autores foram surgindo, conforme aumentava a demanda pelo consumo desse tipo de publicação.

Por que o mangá é um sucesso no mercado editorial?

O Japão é um grande país de leitores. O mercado editorial é forte, portanto.


Os mangá são utilizados inclusive para alfabetização e o seu uso é constante em sala de aula.

O consumo é intenso, pois é uma publicação considerada barata, devido a alta demanda, e a forma como é publicada também contribui.

O papel utilizado é bem mais barato, ou seja, são materiais mais simples como o papel jornal e impressão em preto e branco.

As publicações também são feitas com papel reciclado, possuindo em média 300 a 800 páginas.

Esporadicamente são publicadas algumas páginas em cores, geralmente no início das narrativas, para que os leitores tenham uma noção das cores dos cenários e dos personagens.

Na mangá, as histórias, mesmo as mais longas, têm um começo, meio e fim, diferente das séries americanas.

A cada mês há uma leva de novos personagens e narrativas que são apresentadas para o grande público.

A leitura é mais fluída, pois as imagens são mais privilegiadas do que o texto, contribuindo para uma narrativa dinâmica.

Os leitores japoneses se identificam bastante com as narrativas.

E no mundo, os mangás são capazes de expressar valores universais a partir do cotidiano japonês que para muitos ocidentais despertam curiosidades sobre o modo de vida deste país singular.

Os fãs de mangá geralmente costumam adotar o seguinte critério para classificar os tipos de publicações:

  • Kodomo: para crianças nas idades iniciais;
  • Shonen: para meninos adolescentes;
  • Shoujo: para meninas adolescentes;
  • Seinen: para jovens e adultos homens;
  • Josei: para jovens e mulheres adultas.

Como a produção de mangá é intensa, há uma grande variedade para o mercado editorial, ou seja, públicos bem específicos que vão desde os que adoram histórias sobre esporte, magia, amizade etc.

No Brasil, existem publicações desde a década de 60, mas foi na década de 90 que houve um verdadeiro boom de mangás editados no país.

Atualmente é o tipo de publicação de quadrinhos mais populares aqui, perdendo apenas para A Turma da Mônica, de Maurício de Souza.

A linguagem do mangá

Uma das primeiras características do mangá é o formato dos personagens: altos, esguios, olhos puxados.

Porém hoje há variações que nos permitem dizer que os desenhistas adotam diversos estilos de desenho (além do que citamos há pouco).

Muito da narrativa é construída de forma vertical devido ao sentido da escrita japonesa.

A leitura é da direita para esquerda, mas no início das publicações no final dos Anos 80 e início dos Anos 90 no Brasil, a ordem de leitura foi alterada para o padrão ocidental.

Editora JBC: como ler um mangá

Posteriormente é que houve a mudança, de forma que pudesse tornar-se o mais fiel possível às publicações orientais.

Há vários elementos que contribuem para uma linguagem do mangá.

As onomatopeias por exemplo, possuem um forte significado de comunicação, pois são considerados ideogramas, representando ideias também.

Os elementos da narrativa são destacados como o espaço vazio e o dinamismo das ações onde, por várias páginas, não há um texto sequer.

Há elementos que são acessórios que se destacam na linguagem como, por exemplo, as cerejeiras e o suor nos personagens, expressando sentimentos como medo e raiva.

Metáforas visuais compõem as narrativas do mangá também, como traços caricaturais em situações dramáticas dos personagens.

Os balões de diálogos também são explorados como recursos para a construção de uma linguagem do mangá.

Enquanto nos quadrinhos americanos o balão não possui muitas variações, no mangá até mesmo balões sem texto são destacados para expressar silêncio, por exemplo.

Como a BNCC aborda o mangá

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é o novo documento que regulamenta as aprendizagens para a Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Para a BNCC, a leitura é uma prática social que, por meio das histórias em quadrinhos, corrobora para inserir o indivíduo no dinamismo da sociedade letrada.

Como instrumento para o trabalho em sala de aula, é capaz de propiciar leitura crítica e análise na relação entre texto e imagem de forma sequenciada, produzindo uma narrativa.

É mais do que apenas decodificar o código escrito. É construir uma experiência estética, despertando o gosto pela leitura e fornecendo material para a produção textual.

Trata-se de desenvolver habilidades para a construção de sentidos na leitura de quadrinhos, analisando recursos gráficos que contribuem para a interação entre os elementos verbais e não verbais.

A BNCC considera a história em quadrinhos (e aqui é importante destacar que o mangá é uma história em quadrinhos como outra qualquer) como um suporte à leitura e recurso pedagógico para o incentivo à leitura e à produção textual.

O mangá nacional em sala de aula

Entre crianças e adolescentes, o mangá é uma das publicações favoritas de histórias em quadrinhos.

São raras as publicações nacionais e independentes utilizadas em sala de aula para o trabalho com leitura e produção textual no Ensino Fundamental.

Neste contexto, utilizar uma publicação de quadrinhos capaz de mostrar o contexto do país e expressar valores culturais é muito importante para que se estabeleça identidade e capacidade de reflexão sobre o país.

O livro em quadrinhos “Machado de Assis: caçador de monstros” cumpre esse papel com louvor.

Capa do livro em quadrinhos

Na história, somos apresentados ao jovem escritor Machado de Assis que, ao lado de seus principais personagens literários como Brás Cubas, entre outros, caminha pelas ruas do Rio Antigo para solucionar mistérios.

A narrativa mistura a biografia com a obra do escritor Machado de Assis.

É uma narrativa em quadrinhos com elementos do mangá que pode ser trabalhada em sala de aula.

O livro já foi adotado por professores para ser utilizado pelos alunos. São várias as possibilidades de uso:

  • análise dos recursos gráficos. A interação dos elementos verbais e não verbais;

  • produção textual. Criar um novo final para a história;
    elaboração de resenha crítica;

  • possibilidade para atuar em outras disciplinas como Artes, Geografia e História;

  • uma forma lúdica de apresentar a vida e a obra de Machado de Assis.

Além da narrativa, o livro apresenta como material extra:

  • trechos do roteiro (que podem servir como análise em sala de aula);

  • trecho de um jornal (fictício) impresso do século XIX, que pode servir como material para análise e comparação com os jornais atuais impressos e digitais.

Conclusão

É possível trabalhar com quadrinhos de forma lúdica e que tenham como contexto a realidade do país.

Quadrinhos estimulam a leitura e podem ser utilizados em sala de aula também para produção textual.

O livro em quadrinhos “Machado de Assis: caçador de monstros” apresenta elementos do mangá reconhecidos por leitores, facilitando o processo de aprendizagem.

Foram sugeridas várias atividades para o trabalho em sala de aula que ajudam economizar tempo para a execução de tarefas.

Que outras atividades você poderia realizar com quadrinhos em sala de aula?

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